terça-feira, 28 de setembro de 2010

O mau hálito está no ar…

…mas, felizmente, é possível despoluir a fonte dos gases fedidos. Milhões de pessoas exalam, sem saber, um odor que incomoda as narinas alheias e não desconfiam de onde ele vem. A origem nem sempre está na boca. Que tal acabar com o problema?

Há dúvidas existenciais que aparecem em meio a uma conversa, deixando temporariamente sem resposta uma incerteza da alma. Uma delas, longe de buscar um sentido à vida, contempla um temor, o de desagradar o interlocutor — mais especificamente o nariz dele. Aí, o tema da conversa se extravia e a angústia sopra em direção à boca. Mau hálito: tenho ou não tenho... eis a questão. Essa pergunta atormenta, em algum momento, a maioria dos mortais. Afinal de contas, 99,99% dos seres humanos abrigam, de vez em quando, um fedor bucal — ou halitose, como preferem os especialistas.

Mas o odor que nos acompanha depois de uma noite de sono, menos intenso e passageiro, é uma reação natural do organismo, diferente do bafo que gruda no indivíduo do momento em que ele acorda até a hora de dormir. Esse, sim, indica que algo anda errado na boca ou em outro canto do corpo — na garganta, nos seios nasais, no intestino…

“Se, após tomar o café da manhã e escovar os dentes, o mau hálito persistir, há um possível problema”, alerta a dentista Caroline Calil, pesquisadora da Universidade de São Paulo. No caso, a poluição bucal é o sintoma, muitas vezes imperceptível ao olfato do emissor, de alguma desordem. “Cerca de 40% da população sofre de halitose crônica, que não desaparece após a higienização bucal”, estima a dentista Ana Christina Kolbe, presidente da seção baiana da Associação Brasileira de Halitose. Diga-se: existem mais de 60 origens para o mau cheiro, que foi alvo de uma nova revisão de estudos na Universidade de Minnesota, nos Estados Unidos.

O levantamento confirma o que já se observava no consultório: mais de 90% dos episódios de halitose patológica, mau cheiro que estigmatiza seu portador, provém mesmo da boca. E, aí, a higiene inadequada não leva a culpa sozinha. A causa de bafo campeã é a saburra lingual. “Trata-se de uma massa esbranquiçada, formada por células mortas, restos de alimentos e bactérias, que se acumula no dorso da língua, principalmente na parte de trás dela”, descreve Caroline. “Essa camada protege os micro-organismos do oxigênio, que é nocivo a eles, permitindo que se alimentem e se reproduzam”, conta Ana Christina. Sorte dos micróbios, azar do dono da boca e das narinas da vizinhança, reféns do odor de ovo podre. “As bactérias passam a liberar ali compostos gasosos à base de enxofre”, explica Caroline.

A popular saburra, no entanto, é apenas o desfecho de um processo, que envolve deficiências vitamínicas ou alterações na quantidade e na qualidade da saliva. “É esse líquido que garante a autolimpeza da cavidade bucal”, justifica o dentista paulista Arany Tunes, membro da Associação Internacional de Pesquisa sobre o Mau Hálito. Quando ele se encontra em baixa ou viscoso demais, a probabilidade de bactérias e companhia se depositarem na traseira da língua é muito maior. E por que as fábricas de saliva desaceleram a produção? “Ingestão inadequada de líquidos, dieta desequilibrada, distúrbios hormonais, infecções e até medicamentos podem prejudicar as glândulas salivares”, elenca a dentista Denise Falcão, da Universidade de Brasília (UnB).


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